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FATO:
SOLUÇÃO:
COMPROVE Fácil.
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B. Egon Breitenbach
Para Samuel Huntington, professor de Harvard e reconhecido guru do estudo das Relações Internacionais, autor do clássico "O Choque de Civilizações", com freqüência citado nos discursos oficiais e nas rodas diplomáticas, o mundo "não passa de uma sociedade internacional muito primitiva". Com certeza sua afirmação não se alicerça apenas no fato de que 1 bilhão de adultos são analfabetos, 1,5 bilhão de seres humanos não recebem cuidados públicos de saúde, e 1,75 bilhão não dispõem de água potável. Honestamente, todos concordaríamos com sua corajosa assertiva se examinássemos o modo nada racional como as nações se relacionam e procuram "comunicar-se" face aos milhares de idiomas utilizados pela humanidade. Segundo Huntington, "As pessoas que precisam se comunicar umas com as outras têm que encontrar o meio de fazê-lo. Em certo nível, elas podem confiar em profissionais especialmente treinados, que se tornaram fluentes em dois ou mais idiomas a fim de servir como intérpretes e tradutores. Isso, porém, é incômodo, toma tempo e custa caro. Por isso, através da História, emergiu sempre uma língua franca: o latim nos mundos clássico e medieval, o francês, durante séculos, no Ocidente; o suaíle em muitas partes da África e o inglês em grande parte do mundo na segunda metade do século XX. Os diplomatas, os homens de negócios, os cientistas, os turistas e os serviços que os atendem, os pilotos comerciais e os controladores de tráfego aéreo precisam de algum meio de comunicações eficientes entre si e atualmente usam sobretudo o inglês." Caso não consigamos fazer prevalecer e vigorar a Declaração Universal dos Direitos Humanos, saneando a presente (des)ordem lingüística mundial, estejamos todos cientes de que, no futuro, a situação ficará ainda pior. Basta que se confirmem as previsões dos especialistas do Banco Mundial, que projetam a supremacia econômica da China ainda no primeiro quartel deste século. No Sudeste Asiático, sintomaticamente, o chinês está superando o inglês na condução dos negócios. Vivemos, sem dúvida, o auge de um drama histórico que se repete. Em que o idioma dominante reflete a distribuição do poder no mundo. O latim, o espanhol, o francês, o mandarim, o árabe, e o russo, por exemplo, foram instrumentos de impérios que promoveram e impuseram seus idiomas aos povos dominados. Nos dias atuais, da maneira mais aplastante e anti-democrática possível, o inglês representa aquele papel. Constrange-nos a consumir de forma absolutamente contraproducente boa parte de nossas vidas. Aplastante porque os povos estão vitalmente controlados pela estrutura mundial de dependência tecno-econômica do eixo Estados Unidos - Comunidade Britânica. Anti-democrática porque, repetimos, a Declaração Universal dos Direitos Humanos proclama que todos os seres humanos são iguais também segundo a língua. As barreiras lingüísticas geraram e realimentam, dia após dia, duas imensas classes de cidadãos com base em seu local de nascimento: Uma, de primeira, os falantes nativos do inglês. Obviamente orgulhosa do privilégio que lhe garante boa parte do sucesso nas relações internacionais. Claro, não está disposta a mover uma palha para mudar a situação. Outra, de segunda, formada pelos não-nativos de países de fala inglesa, claramente discriminada, em desvantagem social e econômica. Obrigada a aprender a língua imposta. Alvo potencial de incontáveis caça-níqueis - os falsos cursos de inglês a pulular a Terra. Sobretudo os formuladores de políticas precisam se dar conta da falência do inglês como L.C.M.A. (língua de comunicação mais ampla). Paradoxalmente, ele é uma das línguas menos adaptáveis às exigências da comunicação internacional. Suas deficiências o desaconselham completamente: fonética muito particular e inadequação de sua escrita (crianças anglo-saxãs apresentam índices de dislexia mais elevados), vocabulário imenso, gramática sem clareza, quantidade enorme de expressões imprecisas, usos inesperados, indigenização etc. Diversos cenários o comprovam. Por exemplo: sua adoção como língua oficial na Índia por ocasião de sua independência. Na verdade a escolha, por razões política, preteriu as línguas locais para não favorecer nenhuma das regiões da ex-colônia britânica. Hoje, após décadas de imposição, escassos 2 a 4% da população falam inglês. De Norte a Sul, a comunicação dá-se melhor através do hindi, nativa da Índia e uma da 25 línguas mais faladas no planeta. Mark Fettes escreve, em "History of European Ideas" (1.991): "Extrai-se de uma recente pesquisa que a 'proporção de pessoas capazes de compreender corretamente o inglês (na Europa ocidental)... situa-se sensivelmente abaixo de nossas previsões mais pessimistas, visto que se limita a 6% da população'; ora, (...) a proporção de pessoas capazes de utilizar ativamente a língua é bem menor ainda." A respeitada revista "Time", de 16 de setembro de 1.991, queixava-se de que "Mesmo entre os professores de inglês, o nível lingüístico é fraco. Inúmeros são incapazes de manter uma conversação." Claude Piron, psicólogo, poliglota, professor de línguas, ex-tradutor e intérprete na ONU, que trabalhou em inúmeros ambientes multilíngües espalhados pelo mundo, informa que: "No sistema das Nações Unidas, o custo de uma única tradução simultânea (dessa vez excluindo a tradução de documentos) elevou-se para o exercício 1.984-85 a 78,1 milhões de dólares. E a análise do orçamento da ONU somente, excluídas as instituições especializadas que a ela se ligam e que têm cada uma seu orçamento independente - permite situar o custo global dos serviços lingüísticos da organização para o exercício de 1.992-93, em 300 milhões de dólares." Quanto à Europa, Piron esclarece que "As instituições européias devem fazer face a gastos análogos. As idas e vindas do Parlamento Europeu entre Estrasburgo e Bruxelas teriam custado 80 milhões de dólares em 1.992. Esta cifra não inclui os documentos que transitam por Luxemburgo para lá serem traduzidos e impressos (Luxemburgo abriga 3.400 funcionários do secretariado do Parlamento). A viagem tem lugar duas vezes por mês: 100 toneladas de papéis em onze línguas são transportados pela Danzas." Gérard Mermet, em "Euroscope" (1.991) informa que "as despesas de tradução representam mais de 60% do orçamento do Parlamento Europeu." Mario von Baratta e Jan
Ulrich Clauss, em "Internationale Organisationen"
(Frankfurt über Main), acrescentam: "A União Européia
emprega em torno de 3.000 tradutores e 700 intérpretes-funcionários,
além de 2.500 intérpretes independentes. Apenas em 1.989, ela gastou
para seus serviços lingüísticos cerca de 1,6 bilhões de dólares."
Finalizemos a presente exposição, novamente reproduzindo as sábias palavras de Piron: "Quando pessoas de línguas
diferentes têm negócio umas com as outras, elas são condenadas a se
comportarem, em 80% dos casos, como surdos-mudos que não teriam tido
a chance de aprender a língua dos sinais. Em 10% dos casos onde a
competência lingüística dos parceiros é um pouco maior, a
desigualdade não obstante continua gritante. A soma das frustrações, das complicações, dos
mal-entendidos e dos sofrimentos que essas situações comportam é
impossível de calcular, sobretudo se se levam em conta todos os casos
em que o estrangeiro, por ter dificuldade em fazer-se compreendido, é
vítima de injustiças ou de abusos de poder. Tudo isso teria sido
evitado se as grandes potências, nos anos vinte, tivessem tido mais
senso de solidariedade humana, ou um pouco menos de convencimento na
certeza de sua superioridade intelectual.
___________________________________________ REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BREITENBACH,
B. Egon. A
Língua das Nações.
1ª ed., Porto Alegre: Ed. do Autor , 1.974.
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